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TÍTULO: O LUTO COMO MITO SOCIAL E A MEMÓRIA COMO FALSA VIRTUDE COLETIVA

TÍTULO: O LUTO COMO MITO SOCIAL E A MEMÓRIA COMO FALSA VIRTUDE COLETIVA AUTOR: OTTO CHALEGRE RESUMO Este ensaio utiliza a narrativa como instrumento alegórico para exemplificar o enunciado proposto, expondo de forma exaustiva a falência do luto enquanto construção social em oposição à natureza enquanto verdade última. O choque narrativo não opera como excesso gratuito, mas como meio de evidenciar a relação conturbada do ser humano com a morte, a memória e a tentativa frívola de humanizar aquilo que é, por essência, indiferente. ENUNCIADO Neste ensaio, argumentamos que o luto é uma consequência imediata da morte, contudo, o luto surge de uma construção naturalmente falha, que é a sociedade. Por consequência desta construção advinda da falibilidade da construção social, o luto portanto, não pode ser outra coisa senão uma construção perfeitamente tão falha quanto a sociedade que o construiu, e, que qualquer motivo adverso cometido em vida pelo objeto epicentral do luto, justifica essa prevalência factual da falha deste mesmo luto enquanto construção imperfeita. Além disso, a própria sociedade tenta em vão construir uma ritualização que tenta preservar uma memória que não será respeitada, ela cria sistematizações frívolas para sustentar uma dignidade logo após a morte, afim de "maquiar" essa aparente farsa de repouso, quando na verdade, os mortos são devorados por vermes e fungos em uma feroz decomposição cadavérica até que, mesmo as ossadas tornam-se elementos biológicos pertencentes ao local do repouso... Essa tentativa humana em "humanizar" um processo tão natural como a morte, é, portanto, uma violação a própria natureza, que é a única aproximação verdadeiramente factível de qualquer perfeição que venha a existir. A imaginética popular também falha consigo mesma, demonstrando não apenas que a tentativa de humanização do fator natural é um atentado contra a natureza, como também que essa humanização forçada, é, no fundo, uma falha dupla, social e natural. Natural porque o ser humano não concebe a morte, social porque o ser humano não concebe o próprio luto que construiu. Basta que seja observado o luto enquanto ideia e enquanto prática, a religião em sua perversão anti-natural vende uma falsária percepção irrealista de vida após a morte em sua incapacidade de reconhecer o findar da vida, e, ao mesmo tempo, cria instrumentos de honradez e dignidade em torno de um corpo já falecido enquanto as pessoas velam-no, olhando para o corpo por horas sem nenhuma lógica observável que não sejam argumentos falhos que tentem sustentar o luto. O luto, no fim, é uma construção perversa, composta por uma tentativa frívola de impor dignidade ao que já morreu, de esconder da imaginética popular o fato de que os mortos são devorados em uma decomposição que os vivos não suportam conceber, e que, de alguma forma, os mortos paradoxalmente não morrem, mas, ao invés disso, vivem para sempre, não como partes da natureza, mas como algo que a transcende, o que, francamente, é um absurdo em forma de contos de fadas. NARRATIVA Em uma nem tão pequena cidade consumida pela densa e urbanizada desassociação do que outrora fora um lugar calmo e pacato, recluso nas redondezas interioranas por entre as árvores que antes cercavam, e agora tomada pelo proto-civilizacionismo desenvolvimentista empreendido pela chula governança da gestão do Estado naquele lugar, havia, para além das particularidades da decadência urbana, algo mais íntimo, que estava dentro das próprias estruturas alicerçantes da sociedade que ali residia. A sociedade cidadã de alguns punhados de habitantes, nem muitos nem poucos, era devota fervorosa do catolicismo apostólico romano, fé esta que era absoluta e instava entre as grandes “virtudes” de seus cidadãos, que tão bem se esforçavam (ou ao menos fingiam tão bem que até eles acreditavam em suas próprias máscaras podres de que tudo estava bem) para manter a fachada imaginética de peregrinos moralistas que jamais vacilavam os pés em desvio de suas vãs práticas doutrinárias, que em muito não lhes diziam respeito algum senão à própria perpetuação da mentira. As mulheres, como era de se imaginar, eram o apogeu da civilização humana, o eixo basilar da manifestação encarnada da doutrina patriarcal, isso segundo elas mesmas e seus maridos, homens estes de moral quase incorruptível, segundo os próprios. Estes que casavam cedo sob a proteção ideológica da Igreja e a doutrina civil do Estado costumeiramente seguiam à risca a ritualização de seus pais: confessar-se aos padres, celebrar as missas, respeitar o silêncio e perpetuar a pureza da imagem de Deus, este que compartilhou sua própria forma com sua criação, mesmo ela violando silenciosamente cada um de seus artífices anteriormente demonstrados. Claro, os homens também demonstravam uma latente predileção por corpos femininos que não fossem os de suas próprias esposas, e, justamente por isso, era comum (embora ninguém admitisse em denúncia) que um homem desejasse a mulher do outro, num ambiente quase circular de tão vicioso que era, onde o sistema baseava-se no desejo reprimido, no pensamento como fuga daquela sociedade deprimente e, sobretudo, da própria hipocrisia de sua existência enquanto sistema de regulação de vontades. Como era de praxe, as indesejadas e os afeminados eram expulsos da mais perfeita dos eixos comunitários da cidade, e eram lançados nas ruas, nos bordéis, até nos cemitérios, mas jamais na sociedade, pois claro, a perfeição divina que repousava sob o homem e a mulher de bem jamais permitiria tal insulto. Essas mesmas mulheres indesejadas (normalmente recusantes conscientes de seus pares conseguidos em arranjos) eram, paradoxalmente, as mais desejadas pelos incorruptíveis homens que tão bem comprometidos eram, e eram elas que eles buscavam, e, sobretudo, a elas esses mesmos homens pagavam mais caro. Como toda sociedade, e não diferentemente nesta, havia hierarquias, não apenas sociais, morais ou éticas; havia também o melhor de cada classe hierárquica: a mais virtuosa das mulheres, o mais respeitado dos homens, o mais santificado dos sacerdotes… Até mesmo a mais cobiçada das prostitutas. O casal da Família dos Santos, por exemplo, era essa conjunção perfeita, formada pelo mais encantador dos homens, um de tão alta estima que seus pares se sentiam ameaçados ou enciumados diante de sua presença, acompanhado de sua esposa, a mais devota das mulheres, a quem só era ultrapassada pelas freiras, bem como sua filha, uma solteira que já se preparava para, não ser esposa de homem algum, mas sim, ser esposa do próprio Cristo, Nosso Senhor… Claro, o ego do pai preferiria uma freira do que uma mulher casada; isso seria menos insultivo a este homem de bem. O Sr. Alfredo dos Santos, como era conhecido na cidade, não apenas era um homem exemplar, ele tinha uma compulsão quase santificada por levar esse exemplo para as outras famílias: ele cortejava as esposas dos outros com as quais fazia sexo ardentemente longe dos olhares de seus maridos, pagava pelas meretrizes mais caras com quem se deitava quase todas as noites em seus surtos de boemia, e bem como levava este caráter exemplar à sua própria filha, uma moça já na casa dos dezessete cujo pai lhe negava qualquer proximidade com outro homem que não fosse ele mesmo em noites e dias de pulsão selvagem… De fato, Alfredo era um homem perfeito demais para ser rotulado por algo; ora, como alguém poderia acusá-lo de coisa alguma se todos seguiam seu exemplo mordaz? Não tem sentido. Num de seus dias de boemia fulminante no bordel, Alfredo estava com duas das mais novas prostitutas cujas virgindades lhes foram adquiridas via leilão do prostíbulo, uma prática frequente que introduzia as mulheres que, ao chegar naquele lugar, atendiam a dois critérios: ser absolutamente bela e virgem, e isso não era pouca coisa. Alfredo, que desvirginava as jovens na cama do mais luxuoso quarto do prostíbulo, as abocanhava tal qual o sem-teto ao ver comida depois de uma semana inteira sem saber o que é comer, mas Alfredo comia outras coisas ainda mais apetitosas. As loiras gêmeas que em dor e prazer gemiam em seus braços não o saciavam, e nada lhes era poupado diante das garras daquele homem. De fato, naquela noite fatídica, o patriarca da Família dos Santos privilegiou-se ao ter sua cabeça espremida por dois pares de seios noviços, com os quais dançava sua língua em percorrida lambança em cada um daqueles mamilos delicados e rosados, para logo então morder-lhes não apenas os lábios de cima, como os de baixo, que já não apenas em ferrugens virginais perfaziam, como também em liquidoso orgasmático que, com certa violência biológica, eram expelidos para fora dos ventres das jovens, que nunca haviam visto nem um homem nu, e nem tampouco um falo tão resistentemente enrijecido, dadas as circunstâncias do concubinato provisório do cabaré, mas tamanha destreza corpórea tinha lá seus custos, que não eram poucos… Ao que parece, a morte trabalha como se fosse uma banqueira que lida com juros acumulados. Alfredo, de fato, não ironicamente, se sentiu acima da vida e da morte no ápice de seu próprio orgasmo, estimulado até os confins de seu corpo, da sua mente corroída, e mais ainda, ampliado pela vista privilegiada que sustentava diante de si mesmo: a face entregue daquelas duas meretrizes em tão irredutível submissão. Elas, que com tanta força sentiam seus rostos sendo cobertos e encharcados pelo subproduto do estímulo máximo que ele, por um breve momento, lhes proporcionara enquanto o sêmen saltava de seu membro fálico e, lançado com imediata precisão em seus semblantes, lentamente escorriam pelas bocas entreabertas das jovens, e com a língua elas o devoravam… O gozo cobria as jovens como um véu de igreja, quando na verdade eram elas o total oposto das freiras que a imagem por maldade imitava. Foi quando o homem grunhiu selvagemente, como um animal em êxtase pleno, quase onipotente, mas esse grito de prazer se extendeu anomalamente para além do normal, e aquele que era o mais respeitado dos homens daquela sociedade deprimente caiu tão duro para trás quanto o próprio membro de onde saíra seu prazer sacramentoso e “diabólico” para os padrões da igreja. Ali, factualmente, Alfredo estava já morto diante das mulheres, que gritaram não mais de prazer, mas de desespero, e tão logo o quarto se encheu de testemunhas que assistiram à queda daquele homem, morto com o falo duro como uma pedra, e suas pernas totalmente sujas de seu último gozo, enquanto seu semblante pairava de olhos abertos e já sem vida… Um médico foi em vão chamado, apenas para confirmar o que já estava confirmado. Para a família, não havia desespero algum, apenas a confirmação de uma verdade tardia e já esperada. O homem foi colocado sob um paletó com gravata e posto num caixão para ser velado. Sua esposa, que saíra para conversar com as autoridades, deixara sua filha em casa, servindo os dois funcionários da funerária que ajustavam os preparativos para o velório antes de abrir a casa ao público… Apenas para bagunçar e arrumar de novo, pois ali mesmo diante do corpo frio do próprio pai, sua filha, que nesta altura havia se preparado para fazer seus votos de castidade antes da morte do pai, resolvera, por vingança, devolver-lhe toda a relação incestuosa que até o presente momento estava de pé. Na sala, sob o sofá ao lado do caixão do pai, a jovem seduziu os dois homens que, apesar de hesitantes, foram quase imediatamente atraídos para as chamas do perigo da situação, como mariposas. Ela, que não tinha muito tempo, tratou de não apenas perder a virgindade com ambos de uma única vez, como também o fez enquanto debochava diante do semblante morto de seu pai, impotente no caixão. Os homens que se revezaram entre si com a jovem gozaram cada um dentro da virginal sacracidade da mulher, que, apoiada pelas pernas através de cada um dos funcionários, sentou-se sobre o rosto do pai incestuoso com seu ventre direcionado para a face do homem, e, lentamente, o sêmen de ambos os homens desconhecidos descia do colo virginal dela para repousar quente no semblante gélido de seu pai… Assim como ele mesmo fizera com as duas meretrizes. Agora, a vingança da incestuada estava completa. Antes que todos pudessem chegar ao velório do patriarca, o caixão foi completamente fechado para que não fosse visto o rosto do morto (não por respeito algum, mas por um motivo ainda mais específico: sua filha não queria que fosse limpo, queria que ele fosse enterrado assim, sujo) e assim foi obedecido. O padre, que ao chegar no local junto da esposa do falecido e das demais famílias, ficou diante de um caixão que não tinha significado algum senão o de um homem que falhou em ser Deus, que servia um Deus que falhou em ser homem feito Cristo em carne diante de uma cruz que não tinha significado teológico, e cuja teologia não lhes interessava compreender senão para encontrar uma falsária oportunidade de redenção tardia apesar da maldade, não por amor ao próximo, senão por amor egóico a si mesmo. O corpo nem mesmo passou por uma Missa de Sétimo Dia; o clero que tanto fofocava sobre as suas poucas confissões de uma vida orgulhosamente boêmia se recusou a lhe conceder qualquer forma de benção ou de respeito póstumo. Era anátema até para os mais corruptos dos padres e dos bispos, mesmo para alguns poucos que cortejavam as fiéis e tinham casos com freiras debaixo da cátedra da igreja. Alfredo dos Santos foi sepultado na companhia de sua esposa e de alguns poucos amigos, convenientemente (e justamente) àqueles que tiveram suas esposas tomadas nos braços daquele homem antes de ser o defunto que repousava debaixo da terra macia que cobria seu caixão, e sua filha, que nem mesmo quis acompanhar a mãe para que não fosse ela a única mulher do sepultamento, se foi para o convento da igreja, mas já estava longe demais de ser minimamente pura para estar lá, embora sua vingança não fosse pública como seria a vingança de sua mãe. Ali, diante da lápide do falecido esposo, a viúva de Alfredo, logo acima do bloco de concreto que separava o chão úmido do terreno cercado pelas grades do túmulo, tratou de se entregar à orgia que ela própria se dispôs a fazer junto dos homens que a acompanhavam naquela procissão demoníaca. Ela sentou-se em um encaixe perfeito no colo de um homem que estava deitado de costas para o túmulo enquanto usava suas duas mãos para satisfazer dois outros homens que a cercavam a fim de que sua boca lhes salivasse sob puxões de cabelo e gemidos que ecoavam pela tarde nublada que pairava sobre o cemitério. Ela se movia freneticamente sob o colo daquele que lhe preenchia o ventre com proibido vigor. Em seguida ele a encheu com seu gozo, forte o bastante para transbordá-la, e então outro homem se deitou em seu lugar… e depois outro, e então ela permitiu que a penetrassem por trás em dupla penetração, homem por homem, até que não apenas seus orifícios lhes fossem completamente preenchidos de prazer enquanto mais outros homens sujavam o rosto da viúva com a liquidez de sua infâmia. Depois, a única coisa que restou no túmulo de Alfredo não foram flores em luto, mas sim o sêmen de vários homens que consumiram sua esposa viúva em seu próprio enterro… Ela, então, aproximou-se da lápide ainda com o anel de casamento em seu dedo, e, com os lábios sujos de inclemência, beijou os adornos dourados de seu nome, enquanto urinava sobre o chão, de um propósito tão febril que assustava até mesmo o Diabo. O corpo do patriarca da família mal esfriou e ela já estava em casa, na cama do casal, terminando ali o que no cemitério, já pela noite inteira a fio, não pôde fazer. A humilhação póstuma terminou com a viúva tendo múltiplos orgasmos na cama do falecido, manchando com a vergonha o que em vingança fizera num luto que jamais existiu, provando que, no final das contas, basta-lhe apenas motivo para violá-lo, e que a sociedade é a própria encarnação da maldade. E, enquanto a viúva de Alfredo transgride perpetuamente sua memória de forma medonha, o corpo do profanado apodrece, dia após dia, noite após noite, devorado por fungos e vermes em uma decomposição cadavérica que não tem misericórdia de quem quer que este homem tenha sido um dia… Mas, de certo, mesmo na morte, ninguém é jamais igual ao outro. CONCLUSÃO O luto não existe para honrar o morto, mas para proteger os vivos da natureza da morte. A memória que se pretende preservar não é respeito, mas rearranjo simbólico conveniente. A narrativa não denuncia exceções morais, apenas expõe a regra: diante da morte, toda dignidade é encenação, e toda memória, passível de violação. CHALEGRE, Otto.