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TÍTULO: SOBRE O ÊXTASE HUMANO, A REPRESSÃO DO PRAZER E O FETICHE

TÍTULO: SOBRE O ÊXTASE HUMANO, A REPRESSÃO DO PRAZER E O FETICHE AUTOR: OTTO CHALEGRE RESUMO Este ensaio investiga o êxtase como núcleo do prazer humano e analisa como a repressão moral, religiosa e social atua contra a própria biologia, transformando o desejo em culpa, fetiche e frustração. Ao percorrer temas como privação, castidade, fetichização e morte, o texto sustenta que o prazer não é desvio, mas fundamento da experiência humana, e que sua negação produz mais perversão, não virtude. No fim, defende-se que apenas o prazer vivido rompe, ainda que momentaneamente, a anestesia existencial imposta pelas estruturas sociais. INTRODUÇÃO A vida vem sendo debatida pelos homens desde que o ato de raciocinar sobre ela se instaurou no seio do coletivo e de suas proles inclinadas aos saberes intelectualizantes. O nascer e o morrer tornaram-se fenômenos observáveis às ciências, aos saberes e aos juízos populares, e muito tem sido dito sobre tais fenômenos, de modo excessivo e rico em descrição e variação. Trata-se, quase sempre, do princípio último de toda dúvida humana, pois, de alguma forma, todo pensar se correlaciona com o nascer, o viver e o morrer, direta ou indiretamente. No entanto, as sociedades, seja por cultura, ética ou moral, têm omitido de seus estudos a razão do êxtase e o prazer que o ser humano eventualmente experiencia ao longo de sua vida. Este Tratado tem como objetivo discorrer exaustivamente sobre este tema, abordando-o sob a lente da filosofia e da análise pessoal. I. SOBRE O ESTADO DE ÊXTASE O êxtase é a razão última de todo prazer. Em termos gerais, trata-se do estágio final de um artífice de prazer quando estimulado ao seu extremo, causando uma sensação física inigualável, na qual a razão e o raciocínio deixam momentaneamente de existir em função de um estado anormalizado da consciência e da sanidade. Pode apresentar graus, embora sutis, e repetições ainda em seu ápice estimulativo, que se perfazem em multiplicidade rápida o bastante para cessar segundos depois. II. SOBRE A PRIVAÇÃO DO PRAZER Basicamente, o êxtase é o resultado progressivo do estímulo, embora, em casos adversos da biologia, possa ocorrer involuntariamente, normalmente em atos de privação do estímulo ou em anormalidades orgânicas. A privação do estímulo em si é um ato deliberado de incoerência biológica através de alicerces fundamentados na ética ou na moral (ou em ambas), fazendo com que o indivíduo privado de estímulo seja falsamente conduzido a uma ilusória visão de virtude em detrimento de si mesmo e de suas próprias pulsões. A Igreja comumente tende a dar ênfase de coerção passiva, isto é, fomentando que seus fiéis o façam por livre e espontânea vontade por medo de não terem uma vida “virtuosa” o bastante que os leve para um inferno inexistente. III. Sobre a repressão ao prazer A Igreja, neste sentido, é a maior inimiga do ser humano, porque ela não vai apenas contra o ser humano em si, ela vai contra a própria biologia e as ciências. Castidade, neste caso, se trata de uma prisão em torno do próprio corpo, consciência e vontade, e a Igreja o faz para preservar a si mesma de forma individualista no que condiz com a moral estabelecida por seus patriarcas e “doutores” em prol de um estado social harmônico, quando, em verdade, este individualismo moral empreendido pela Igreja e seus costumes, ironicamente, é a maior prova de que o individualismo sempre esteve acima dos interesses coletivos. Há certamente abusos dentro das estruturas da Igreja, padres tendo casos com freiras e fiéis às escondidas, e nunca saberemos por inteiro, apenas os grandes escândalos, que convenientemente, são apenas um fragmento desta utopia teocrática. Não apenas recluso ao cristianismo, o êxtase humano é constantemente censurado e omitido enquanto estado biológico como razão última do prazer em outras religiões abraâmicas, como o judaísmo e o islamismo, este último sendo uma verdadeira máquina de opressão, onde o homem é impedido de pensar e a mulher é impedida de sentir. Aqui o prazer feminino, profundamente explorado com folga de liberdade no ocidente, simplesmente não existe... Fetiches, pulsões e vontades são duramente reprimidos, o que fazem destes povos que são aprisionados pela religião um poço de infelicidade e frustração. Eles dizem que os homens vão para um paraíso com 40 mulheres virgens, as mulheres, entretanto, vão para paraísos de 40 homens virgens? A religião opressora permite bacanais no céu, mas os proíbe na terra? Que merda de religião é esta, cujos profetas e califas são a devassidão do mundo que eles mesmos construíram? IV. A REPRESSÃO COMO FOMENTO INDIRETO AO FETICHE Quando há repressão que condene a fisiologidade em diferentes graus acerca de libido, prazer, êxtase ou derivados, a pulsão, o desejo e demais artífices crescem exponencialmente, não apenas pelo fato do ser humano ter tendência pelo que é proibido, mas também por forçar o ser humano a ser algo que ele não foi feito para ser: um ser castrado de desejos e isento de idealizações. O homem, a mulher, eles sempre idealizam uns aos outros e a si mesmos com ainda mais vontade e ferocidade quando sabem que são proibidos de fazê-los em algum grau de minimização, causando um efeito reverso aos anseios do propósito da própria repressão, criando fetiches, idealizações, fantasias e fugas de realidade. Esses fetiches sempre aparecem como um mecanismo de resistência antagonizante: se na igreja é proibido, é desejável; se em momentos de luto é proibido, também é desejável; se com pessoas inacessíveis é proibido, é desejável, e mesmo que a consciência negue, o subconsciente reafirma. O fetiche, além de ser uma resposta direta ao ambiente hostil às pulsões, também é uma resposta direta ao novo, ao “nunca fiz isso antes”, ao “isso não pode acontecer”. É um efeito de negação que se torna afirmação, e que aumenta exponencialmente conforme a repressão cresce. É por isso que tem crente pensando como que seria fazer sexo numa igreja, não porque o sexo é desejado, mas porque onde ele será feito é mais desejado ainda. V. SOBRE A NATUREZA DO FETICHE O fetiche sexual surge quando o prazer humano é insuficiente através da estimulação normal, ele precisa agora de artífices que o façam, enquanto estímulo, ter maior eficiência sobre o corpo. Isso acontece, ironicamente, em dois estados opostos da natureza: quando o sexo é normalizado demais, e quando o sexo é condenado demais. Diante de um ambiente onde o sexo é normalizado demais, o ato em si vira tão absolutamente mecânico que seu estágio bruto comum se torna anestesia, e o êxtase quase nem aparece mais, porque o comum já foi explorado tanto que não importa mais fazê-lo, é normal, comum, rotineiro. Isso obriga os detentores da normalidade a buscarem fontes alternativas de estímulos (pessoas comuns que lidam com o sexo de maneira simplista no sentido de normalidade). Essas fontes alternadas de estímulo criam o prazer absoluto como condicional recluso ao artífice estimulativo: mulheres que fazem sexo em uma única posição como nos séculos passados já não querem mais a mesma posição, elas querem experimentar novidade, alternância, posições novas, parceiros novos, situações adversas, quantidade maior e simultânea de parceiros, etc. Enquanto o homem, por estar acostumado a lidar com várias mulheres sem ser vandalizado por isso, acaba experienciando essa gradatividade com uma certa lentidão evolutiva, é biologia pura. Enquanto que nos ambientes onde o sexo é vandalizado demais ou condenado demais, o simples fato de existir um contato que não deveria acontecer já se torna prazeroso o bastante, é como o primeiro gole de vinho antes da embriaguez: é gostoso, forte na medida certa, mas isso também vira anestesia depois. Com o tempo, as pessoas que conseguem encontrar brechas dentro do sistema que as pune por exercer a própria biologia de seus corpos acabam vivendo picos de luxúria desenfreada, como um pobre que faz gastanças porque ganhou na loteria... Ele nunca foi rico, mas agora, é. Um exemplo banalmente simples são os soldados norte-coreanos no front da Guerra Russo-Ucraniana experimentando a internet pela primeira vez na vida e se viciando em pornografia. Isso não quer dizer que eles não saibam o que é o sexo, mas sim que, de outras formas tão bem exploradas, o sexo com resquícios de novidade ganha um fôlego a mais para ser consumido. VI. A VIDA E A MORTE A morte é um elemento abundante, ironicamente: o ser humano sabe que vai morrer, e experiencia sua morte todos os dias quando dorme ou quando perde a consciência, porque no fundo, morrer é apenas deixar de existir enquanto ser e principalmente enquanto consciência, e embora a moral, os costumes ou a ética tentem em vão contrapor a factuabilidade da inexistência com promessas frívolas e vazias de um paraíso e um inferno, no fundo, todos sabemos que no final, apenas nos resta o nada absoluto, e é a única certeza desta vida, quer queira, quer não. Por outro lado, a vida, apesar de vivida o tempo inteiro, não é abundante, ela só é constante, e sua escassez reside nas poucas vezes em que o prazer é verdadeiramente sentido, seja mental, ocasional, ou, principalmente, sexual. Ali, naqueles momentos irracionais onde tudo o que importa é a perpetuação do orgasmo humano em detrimento das normas vigentes, nada mais importa, sistemas, instituições ou pessoas viram, momentaneamente, detalhes mínimos, e por vezes, estes detalhes servem ao prazer, quando usados por pessoas que sabem drená-los para seus propósitos egoístas e, em suma, profundamente humanos, porque ser um humano é necessariamente ser individualista até os ossos, e se contradizer todos os dias em busca de redenção transcendente que todos nós sabemos que não vai existir. Todas essas factuabilidades justificam o sexo diante de situações adversas, em público, em instituições, em lugares proibidos, ilegais, diante de pessoas, através de pessoas, por causa de pessoas e para pessoas. CONCLUSÃO Nossa vida enquanto vida é escassa porque não é eterna, vivemos pouco, de forma constante, sob sofrimento, repressão e infelicidade a maioria do tempo, enquanto o prazer, êxtase e satisfação raramente ocorrem enquanto fenômenos que deveriam se perpetuar dada a nossa natureza prosaica. A morte é abundante e experienciada a todo momento, quando dormimos, quando abandonamos a nossa consciência e o nosso direito de desfrutar do prazer por amarras sociais. A repressão é contra toda a nossa biologia, e mais ainda nos torna ainda mais infames quando nos deparamos com o moralmente errado, mas pervertidamente atraente. No fim, apenas o prazer humano importa, todo o resto são sistematizações criadas para tentar domar o espírito e a natureza do homem. CHALEGRE, Otto.