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Little White Dog

TÍTULO: DO PODER COMO RETORNO AO ESTADO NATURAL

TÍTULO: DO PODER COMO RETORNO AO ESTADO NATURAL AUTOR: OTTO CHALEGRE RESUMO Este ensaio descreve a relação entre o poder e a natureza do ser humano e afirma que o ser, quando empoderado pelos adornos de quaisquer artífices de soberania individual, tende, em detrimento do coletivo, a enriquecer a própria experiência de subsistência num processo que desconhece limitações, uma vez que estas inexistem diante do indivíduo que nega a coletividade, senão para seu próprio benefício. Portanto, o poder é, para o indivíduo, uma porta que lhe permite explorar sua própria natureza, não apenas legitimando a experiência de sua subsistência, como também enriquecendo-a. ENUNCIADO O Poder, quando investido na figura humana de maneira integral e/ou parcialmente irrestrita, transforma-a num animal perfeito, no sentido natural, pois a natureza é a aproximação mais realista de qualquer tipo de perfeição funcional concebida. O Estado Natural do ser é composto por uma completa ausência de burocratizações sociais e ontológicas, uma verdadeira animalidade anárquica, individualista e sobrevivencialista, onde apenas suas necessidades de subsistência importam, em detrimento não apenas do outro, como de qualquer outra forma mínima de oposição. Parte da subsistência, em termos naturais, refere-se não apenas às condições de sustentar a sobrevivência, como também de tornar essa subsistência apreciável o bastante para que a morte seja indesejável por si mesma, onde as pulsões sexuais agem como soberania acima (e principalmente) do outro. A questão é que essas pulsões são reprimidas e autorreprimidas através do contexto social, onde vigoram as normas éticas e morais do mundo que os seres humanos construíram para não poderem devorar seu próximo, pois a religião suprime esta parte da subsistência, tornando-a indialogável. O fato é que o ser humano usa o sexo não apenas para se satisfazer, como também para exercer soberania sobre si mesmo e sobre seus semelhantes e, quando em situações propícias para tais, essas pulsões são despidas da ética religiosa e escondidas (bem como fomentadas) pelo Poder; o sexo ganha ainda mais camadas de sustentação, camadas estas que desconhecem limites quanto mais perto da natureza verdadeira do homem estiverem. O Estado Natural humano viola totalmente todas as normas que ele mesmo construiu, pois tais normas existem apenas para fazer subsistir o coletivo em detrimento do singular. A naturalidade humana, por mais absurda que pareça, é apenas uma inversão do coletivo; é quando o ser usa elementos para fazer subsistir o individual sobre o coletivo, ainda que, se necessário for, esta subsistência individual case com o (ou resulte no) detrimento direto do coletivo. Entretanto, o sistema social coletivo falha exatamente em um ponto onde, de alguma forma, coexistem o individual e o coletivo ao mesmo tempo, e é justamente por essa ambiguidade que se abre a oportunidade de o homem ser exatamente quem ele é: um animal. O Poder a que me refiro é o artífice perfeito; quanto mais absoluto, mais tende a fazer o homem retornar ao seu estado natural, quase de forma minuciosamente proporcional: quanto menos barreiras para o agir, mais ele agirá segundo seu próprio subconsciente animalesco e feroz. E isso não é falha alguma; ora, é a natureza em sua forma bruta de ser e de existir, e qualquer outra forma que não seja esta não é, portanto, a natureza verdadeira, senão abstrações construídas, maquiadas ou manipuladas pelo sistema social em sua fulminante vontade de alimentar-se de um coletivo tanto quanto o individual se alimenta em torno de si mesmo. A narrativa deste ensaio encarna exatamente o lado operacional deste enunciado, mostrando de forma sistêmica e prática os conceitos desenvolvidos e abordados até aqui. A leitura, portanto, dispensa qualquer artificialidade de uma suposta experiência confortável que o leitor esperaria ter, pois não a terá. NARRATIVA Nas ruas imundas do lixão a céu aberto que ousam os metropolitanos chamar de "Município Neutro", havia um pobre diabo que surgira no mundo expelido tal qual o gozo mal orgasmado de um garimpeiro bêbado e obtuso numa meretriz desdentada de algum cabaré de esquina; ou como o útero que recusa a própria insalubridade do feto que viria a dar gênese a um verme imprestável que de nada serve senão para roubar-lhe a dignidade por ter o desgosto de algum dia tê-lo carregado na barriga: assim era ele, Simão d'Afonseca, Barão de Rousenbourg, o maior egresso da alcova mais desonrada de todo o Rio de Janeiro, cuja existência pestilenta, rabugenta e desagradável ofuscava qualquer resquício de beleza ou honradez da vida, esta que daquele parasita deplorável e insignificante tanto se esquivava com tamanho sucesso — e, diga-se de passagem, o único sucesso que poderia em vida ter. Natural da Província de São Paulo, Simão cresceu rodeado pelas maiores perversidades que uma criatura poderia vilmente presenciar. Sua mãe, que era uma puta do quengaral do Vale, o teve ainda dentro daquela casa de prazeres, onde ele cresceu e testemunhou, para sua própria desgraça, os mais infames bacanais promovidos pelos garimpeiros das redondezas. O coitado do Simão, que não tinha com quem nem onde ficar, era obrigado a ficar no canto do quarto enquanto sua própria mãe era consumada em orgias descomunais bem ali na sua frente, sem que nada pudesse fazer, inerte e impotente; tudo o que lhe restava era masturbar-se para aquilo como primeiro contato com o prazer humano, ainda que profundamente doloroso e, sobretudo, demoníaco. Conta-se que certa vez este ignóbil tentou o suicídio no pútrido banheiro daquele periférico cabaré e, falhando miseravelmente ao romper a corda que o pendurava pelo pescoço ao teto, desabou junto à madeira velha que sobre ele caiu, esborrachando-se no chão imundo daquela pocilga repleta de líquidos duvidosos — e só não caiu sobre preservativos porque no Império ainda inexistiam tais inovações. Rendendo-lhe ainda mais prejuízos ao local, a cafetina do bordel, Dona Maria Peixeira, o obrigou a não apenas consertar tudo, como também servir aos clientes que tinham gosto por homens afeminados, a fim de prover dinheiro o bastante para conseguir os materiais de construção. O miserável, que já não tinha nenhum senso de respeito por si mesmo, nem da sua parte e nem da parte dos outros, perdeu a virgindade das pregas anais tão logo quanto na vida adentrou, ainda que brevemente, em cerca de quatorze noites consumadas, experimentando falos de todos os tipos e tamanhos. Ao pagar suas dívidas, a cafetina quis tapiá-lo novamente e, sem sucesso, quis afugentar a mãe do energúmeno, que saíra de uma dívida apenas para cair em outra. Mesmo assim, a cafetina e a mãe de Simão concordaram de bom grado em um sexo lésbico como entrada do pagamento injusto; Simão, ao encontrar ambas, acabou não suportando e as esfaqueou aos berros até a morte, enquanto o sangue fervente de sua própria mãe e também o da cafetina jaziam espirrados em seu rosto. Então, viu-se a fugir por necessidade, a fim de que não fosse pego, nem para a vida, nem para a morte, rumando à Província de Minas Geraes por algum tempo antes de, por fim, ir para o Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, Simão começou sua vida ainda jovem como ajudante de pedreiro (um trabalho bastante digno comparado à completa falta de dignidade de Simão), carregando para lá e para cá tijolos, areia e cimento, de sol a sol, em troca de alguns réis e nada a mais. A vida de suor lhe retirou quaisquer resquícios de humanidade quando este percebera que sua vida se resumia a trabalhar e dormir pouquíssimo apenas para trabalhar de novo; essa miséria de escravidão enrustida o fez decidir fugir, mas antes que pudesse fazê-lo, a Baronesa de Rousenbourg, uma ninfomaníaca recém-chegada da Baviera, lhe fitou os olhos sádicos e o comprou como parte de sua coleção maquiavélica de serviçais. Simão d'Afonseca começou seu novo trabalho participando de todos os tipos de orgias com a Baronesa, que sozinha aguentava mais de 15 (quinze) homens de uma vez só — um feito bastante impressionante para a época. Simão, que agora era sustentado para que, toda santa noite, pudesse sustentar os insanos prazeres da Baronesa, não tinha mais que um quarto, quando não era mandado para o porão junto dos demais, à base de chicotadas severas nas costas. Com o tempo, a nobreza começou a cobrar da Baronesa para que se casasse logo, pois era feio demais uma mulher que acabara de chegar aos 20 (vinte) anos de idade não ter marido; para piorar a situação, engravidou por acidente num de seus infames atos orgiáticos de consumação carnal. Ela decidira se casar com Simão, mas mantendo seu tradicional costume em noites sem lua. Simão, que agora era Barão por direito de legitimidade, teria que sustentar um filho que sequer era seu e posar de marido perante uma mulher que se satisfazia com todo tipo de homem. O infeliz, além de não ser pai, ainda era corno. Com o passar dos anos, os grupos seletos da Baronesa (majoritariamente compostos por escravos) eram substituídos por outros homens mais novos e com mais vitalidade e, para preservar o seu segredo, ela sempre ordenava a matança de todos os que eram substituídos: eram facadas, enforcamentos, envenenamentos, tiros e toda sorte metodológica de fazê-los conhecer a morte. De fato, havia um cemitério clandestino no grande quintal do palacete da Baronesa de Rousenbourg e, como Simão era seu esposo, mesmo que por conveniência, era ele o responsável pelo cumprimento da ordem de matá-los... algo que mais tarde começou a perturbá-lo, pois não tinha a frieza necessária, embora fosse obrigado a fazer tudo, mesmo o enterro dos infelizes que jaziam no quintal. Com o tempo, Simão começou a ficar meio doente: nas ruas andava com a Baronesa e se apresentava como um homem minimamente respeitado, na medida do possível, mas tinha que fingir ser pai de um filho que não era dele, tinha que suportar as inúmeras orgias de sua esposa — que já não o deixava participar de mais nada, dada a preferência pelos mais jovens — e ainda teria que assassinar os surubistas mais velhos e enterrá-los. Tudo isso apenas para fingir que estava tudo bem, mas a verdade era muito mais cruel do que deveria ser. Mesmo na cama com ela, em busca de seu descanso, sempre havia um outro homem junto deles para saciá-la, enquanto ela sorria da impotência de Simão em gemidos de escárnio, dor, prazer e sadismo; e quando não eram dois ao mesmo tempo, Simão era obrigado a ficar ali para o puro deleite da Baronesa, que se alimentava da frustração de seu esposo com um prazer doentio, maligno e perverso. Com o passar dos anos, o próprio filho da Baronesa era quem ficava na cama com ela, enquanto Simão d'Afonseca apenas assistia a tudo obrigatoriamente. Havia dias em que a Baronesa obrigava o pobre diabo a comparecer em suas orgias não para participar, mas para assistir, de pé, sob os dizeres insalubres de coisas como "masturbe-se para mim!" e seus derivados. Às vezes, o prazer daquela alma maldita (se é que podemos cogitar que ela tinha alma) era vê-lo sofrer enquanto ele, aos prantos, chegava ao orgasmo com lágrimas misturadas com suas sementes. Isso quando a Baronesa não o obrigava a engolir o choro e limpar não apenas a sujeira que ele mesmo fazia, como a própria sujeira do ambiente com a própria língua, num gesto de demonstração de poder em plena humilhação. Simão planejou sua vingança com meticulosidade para fazer aquela mulher arder no inferno sem antes sofrer um bocado. Numa das vezes em que ele deveria matar a geração envelhecida dos surubistas, assim que entrou no porão com seu mosquete e uma espada, decidiu libertá-los e poupá-los da morte, contando a eles toda a verdade; estes, com bastante indignação, concordaram em levantar um motim onde a maldita Baronesa morreria sob tortura prolongada. O riso triunfante de Simão d'Afonseca se ergueu genuinamente após muitos anos — talvez a única vez na vida em que verdadeiramente sorriu de verdade. Quando ele estava subindo as escadas junto dos demais, ao abrir a porta do subsolo, seu afilhado deu-lhe uma paulada em sua cabeça, fazendo com que o homem viesse a cair desmaiado. Ao acordar, tarde da noite, estava ele nu, amarrado nas mãos e nos pés, enquanto a Baronesa de Rousenbourg estava sentada numa cadeira tal qual uma tirana sob o trono, observando-o com um riso de desdém. De fato, ela havia, infelizmente, ganhado de novo, e as mesmas pessoas que Simão d'Afonseca havia de libertar para formar o levante estavam agora em torno dele para cumprir uma ordem horrenda... Ali o Barão de Rousenbourg fora severamente castigado, servindo como alívio para uma fila inteira de escravos que o tomaram até que lhe fosse afundada impiedosamente a cavidade anal daquele que já não era mais um homem, mas sim o subproduto da maldade que a sociedade em segredo faz. A Baronesa, que se siriricava em prazer descomunal vendo-o sofrer, atingira o clímax quando o homem já nem era homem, mas ainda não havia terminado. O Barão d'Afonseca Rousenbourg, ainda pela madrugada, foi arremessado numa cova, sem caixão, sem nada, enquanto os homens o enterravam vivo. Mas Simão, desta vez, não resistiu; ele ficou imóvel enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto; talvez fosse preferível mesmo a morte depois de uma vida tão ingrata. Rapidamente a terra cobriu seu rosto e deu-se início à última de suas angústias: doía o peito e os pulmões enquanto a terra o devorava, e ele, sem fôlego, enfrentava a pior das dores, enquanto todo o seu corpo pedia por socorro e sua alma, que já nem mais estava com ele, apenas dizia "que venha logo a morte". Em alguns longos e intermináveis minutos, a cova estava completamente coberta e a imagem de Simão desaparecera com ela. Em todos os dias de finados dos próximos anos, a Baronesa dedicou-se a profanar seu túmulo, urinando na terra que levaria aquele líquido para as ossadas daquele que foi a mais infeliz das criaturas. CONCLUSÃO Em termos gerais, o poder dá ao ser uma plenitude não apenas sobre si, como também sobre o outro, e a soberania sobre o outro legitima a própria subsistência porque dialoga com a natureza, e a natureza é a única fonte viável de qualquer coisa que se aproxime de alguma verdade. A narrativa serve exatamente para demonstrar o enunciado da forma mais crua e lógica possível, uma vez que ambos são elementos retóricos que servem ao entendimento. A soberania sobre o outro dialoga com a própria soberania, não porque o indivíduo precise de coletivismos para se suster, mas porque os próprios artífices coletivos, quando obedientes ao que lhes é natural, tornam-se parte de quem melhor lhes exerce soberania. A sociedade, como é observável, criou sistemas que transformam o controle sobre as próprias pulsões como se fosse uma virtude; esquecem-se os beneficiários da sociedade, bem como seus mantenedores, que a única virtude é servir a si mesmo, pois é o mais natural possível. CHALEGRE, Otto.