TÍTULO: A NATUREZA ENQUANTO REJEIÇÃO À DOMESTICAÇÃO HUMANA
TÍTULO: A NATUREZA ENQUANTO REJEIÇÃO À DOMESTICAÇÃO HUMANA
AUTOR: OTTO CHALEGRE
RESUMO
O ensaio sustenta que a sociedade opera como um sistema de domesticação que afasta o ser humano de sua natureza originária, reprimindo suas pulsões e convertendo a vida coletiva em um instrumento de submissão e concentração de poder. Ao aceitar normas sociais, morais e religiosas, o indivíduo abdica de sua soberania e passa a servir a uma coletividade ilusória que não o protege, mas o esvazia e o anula. O texto defende que a dignidade, o orgulho e a identidade não são virtudes herdadas do social, mas construções estritamente individuais, continuamente usurpadas pelo sistema em nome de uma falsa moral comum. Assim, a submissão à ordem social representa a negação da natureza humana e a traição do indivíduo a si mesmo, resultando na obliteração de sua autonomia e de sua própria existência enquanto ser singular.
ENUNCIADO
O ser humano enquanto animal com pulsões e vontades reprimidas tende a ser mais vívido quando próximo de seu estado de origem, uma vez que a natureza é seu verdadeiro pertencimento habitativo, e quando este resolve por si mesmo ou por outrem se submeter às normas sociais que claramente foram feitas para destruir e reprimir suas verdadeiras vontades, qualquer coisa no sistema torna-se um elemento carrasquioso. Submeter-se ao sistema social torna-se a negação da maior das virtudes humanas, que é a de servir a si mesmo, ainda que em detrimento do outro; neste caso, quando o homem encarna a figura participativa do sistema, ele se dobra a ele, curvando-se como um frívolo súdito que não sente vontade alguma senão a subserviência ao coletivo, coletivo este que nunca o defenderá, do contrário, o esmagará até que nada mais reste senão a completa e irreconhecível destruição do indivíduo.
A sociedade enquanto construção serve apenas como manifestação do poder de alguns poucos em detrimento de toda a cadeia comunitária humana, não como mantenedora de bem-estar algum. O Poder, ao invés de usado por qualquer um, como verdadeiros animais que somos em nossa subconsciente vontade de exercer para nós mesmos o domínio e o jugo como bem acharmos apropriado, é, por causa do sistema social e também religioso, uma flagelação do todo singular em nome de uma falsária coletividade, e esta, por sua vez, sustenta para aqueles a quem ela própria delega poder aquilo que ela própria deveria exercer por si mesma, e esta é a maior das covardias.
O indivíduo trai a si mesmo quando delega outros a fim de que estes exerçam a soberania em seu próprio nome, e, uma vez submetido aos vícios do sistema, o homem torna-se algo puramente domesticado, e essa domesticação é seu maior veneno: o homem precisa ir à igreja rezar para um Deus morto, precisa ir ao cemitério para esquecer-se dos vivos, precisa sustentar o desrespeito do trabalho travestido de dignidade quando este lhe retira a pouca dignidade que ainda há, e, mais ainda, torna-se carente da aprovação alheia, quando apenas a aprovação de si lhe basta.
O ser humano domesticado pela sociedade é um ser castrado de suas virtudes e condenado à humilhação perpétua, uma vez que a sociedade é a força motriz de todas as frustrações que lhes são acometidas ao indivíduo que agora luta pelo coletivo que não lutará pelo seu individual, e, mais ainda, esmagará este individualista até a obliteração da identidade. A dignidade, aliás, não é um conceito herdado da coletividade, ele é uma abstração conceitual puramente individualista, ela é a construção do indivíduo em torno de si mesmo, usado entre outros fins para validar-se como acima dos demais, uma vez que sua natureza preza também pelo prazer de ser quem exatamente alguém é, sem os adornos da sociedade, tal qual o orgulho que alguém sente de si mesmo por ser tão humano, embora, em última análise, estes conceitos como o orgulho e a dignidade tenham sido também usurpados pela sociedade.
NARRATIVA
Diego era um cão sarnento e deplorável, um verdadeiro monumento de banha e gordura que representava toda a escória da humanidade em seu apogeu de imundície e vergonha perpétua, este imprestável, um amontoado de tudo o que representava em inverso o homem perfeito, era, portanto, uma bomba cardiovascular que a qualquer momento poderia, por fulminante ataque e vontade do adverso, morrer em desastre corpóreo...
O único problema mesmo seria o trabalho inarrável de retirá-lo de onde quer que este saco de fezes estivesse caso a morte o encontrasse e decidisse que aquela era a hora do mundo perder um peso para o submundo ganhar outro em seu lugar.
Aliás, não seria fácil colocar este imundo num caixão decente, seria-lhe cogitável, por boa vontade em nome da dignidade da própria logística, esquartejar para cremar uma parte de cada vez ou alugar um quarteirão inteiro num cemitério, onde as larvas e os vermes demorariam meses para devorar aquele que era a criação máxima de Deus em seu estado febril de divindade, como num surto cósmico onde o divino e o blasfemo andam de mãos dadas lado a lado numa única criação, se é que aquela praga merecesse tal alcunha.
Ele trabalhava no setor de RH de uma empresa vagabunda de esquina d'algum bairro periférico de uma cidade tão sebosa que nem mesmo vale-me o trabalho de mencionar, tamanha era a sua insignificância. Diego era constantemente alcunhado de "diodegredo", uma junção jogosa entre "dio" (em referência direta ao DIU, um método contraceptivo feminino) e "degredo", que nada mais é que o próprio ato de expurgo; portanto, diodegredo era o nome perfeito para fazer a alusão de que a vida está constantemente lhe empatando, como se de fato Diego fosse algo que não foi parido, mas sim, cagado.
Na juventude era constantemente vilipendiado por sua insignificância peniana, era um fracasso mulheril e uma vergonha a qualquer imagem masculina; o pai lhe recusava dar-lhe sobrenome, a mãe não queria lhe dar nome (e só o fez por obrigação). Talvez a única vez em que Diego de fato teve contato com uma vagina foi quando sua mãe, coitada, teve que, em monumental esforço, parí-lo sem cesariana... A única coisa que salvou-lhe da morte foi a extrema elasticidade do órgão vaginal, que também não era poupado de encontros duvidosos antes da gravidez indesejada deste ser excrementoso que nem mesmo a própria parentela ousava reivindicar.
Na infância, mais ainda era o seu sofrimento, chamado de tetuso, baleia azul de água doce, pirarucu gigante, sapo-cururu do beiço inchado e outros adjetivos que servem apenas para dar a gênese de sua própria insignificância. Quando adolescente, se apaixonou pela garota mais bela da classe, mas, ao saber que sua amada estava namorando outros rapazes simultaneamente, tentou suicídio; a corda do pescoço rompeu com o peso na tentativa, fazendo-o fracassar até mesmo no mais infame dos atos.
Toda a sua existência medíocre o desprovido de qualquer tipo de honra ou dignidade acompanhava-o onde quer que este verme inútil se arrastasse, e no trabalho não era diferente. O "diodegredo" era constantemente e severamente desprezado e ridicularizado, mas este tinha fé que um dia as coisas mudariam em seu favor... O destino, é claro, não poderia ser mais cruel.
Com o tempo, Diego passou a buscar a igreja, na esperança de que Deus o tirasse da miséria constrangedora que era a sua própria existência, mas mesmo Deus se recusava a atender aquele pobre diabo, como se as preces vindas daquele ser aborrível fossem um atentado direto contra a própria divindade. Ele novamente se apaixonou por uma garota da comunidade evangélica que participava e, contra todas as leis do bom senso, a cortejou; e ela, por gentileza, não se afastava, criando uma falsa sensação de reciprocidade... O destino parecia até gostar da atrocidade que estava prestes a acontecer.
Diego tomou coragem e decidiu comprar um buquê de flores com chocolate e foi de encontro à reunião de jovens; guardou tudo para esperar que todos pudessem ir embora, uma vez que ela fazia parte do ministério daquela comunidade e aquele seria o dia perfeito para declarar o seu amor incondicional por ela.
Quando todos foram embora, ele pegou o buquê de rosas e a caixa de chocolates e foi todo feliz caminhando entre os corredores e bancos vazios da igreja para declarar o seu amor, mas quanto mais ele se aproximava da sala de reuniões ministeriais, mais ouvia suspiros femininos contidos até que seus neurônios pudessem processar que eram gemidos de prazer. Ele ficou atrás da porta ouvindo tudo, mas o seu peso fez com que a porta, que nem estava trancada, viesse a se abrir, revelando a atrocidade daquela cena: a jovem, na altura dos seus 19 para 20 anos, tinha um caso com o pastor da igreja, com o qual estavam tendo um momento íntimo.
Contudo, a jovem que estava perto do êxtase orgásmico não cessou seu ato; ao contrário, continuou cavalgando no colo do outro homem enquanto encarava Diego nos olhos, o que de fato fez por alguns segundos até sentir o prazer total, enquanto Diego, com o buquê e os chocolates em mãos, chorava de desgosto, não mais suportando aquilo tudo e indo embora sem que ninguém fosse atrás dele, e nem queriam, pois o casal ainda comeu os chocolates da caixa que ele deixou caída no chão.
No começo da semana, passado o domingo do culto ao qual jamais hesitaria em voltar, estava ele no computador do trabalho, em que decidiu se afundar no vício da pornografia para encontrar algum tipo de prazer momentâneo, já que a vida havia lhe arrancado tudo e potencializado as suas desgraças, que eram muitas. No princípio da noite, já sozinho e pronto para ir embora, decidiu abrir um site de conteúdo adulto para aliviar o estresse dos últimos acontecimentos.
Na tela inicial de vídeos recentes, ele abriu um que havia lhe chamado a atenção: um sexo grupal com uma mulher no centro de todas as atenções, e ali mesmo ele se preparou para se masturbar para a cena, quando seu rosto congelou ao ver quem de fato era a mulher do vídeo... Era a sua própria mãe, em seu próprio quarto: as paredes eram as mesmas, o rosto, o corpo, o olhar, e tudo o que ele fez foi se entregar ao momento com um absurdo desconforto de quem se rende ao proibido.
Antes que ele começasse a ter os espasmos orgasmáticos diante do vídeo, dois de seus colegas de outro setor, que ainda não haviam de fato ido embora, entraram em sua sala filmando-o com um celular, como quem faz uma pegadinha qualquer... Mas o momento capturado foi o mais vergonhoso de todos: filmaram Diego em seu descontrole, bem como o conteúdo consumido, e, sob risadas de escárnio e deboche, eternizaram-no na web... E Diego ficou para sempre perpetuado daquela maneira, como um pária recusado por tudo e todos, consumindo um vídeo adulto onde sua própria mãe era a atriz principal.
CONCLUSÃO
O sistema aprisiona o indivíduo, e não apenas o desfaz de suas vestes originais e animalescas, como também o oprime e o violencia ininterruptamente. A história da narrativa justifica o enunciado justamente pelo excesso de brutalidade quotidiana: o arquétipo explorado não é alguém, é o objetivo final do escárnio da humanidade, porque no final, apenas a degradação do ser importa ao sistema, mas jamais a sua construção nem tampouco seu enriquecimento enquanto ser; a individualidade aqui, ao invés de ser a virtude que é, se torna pecado, crime e imoralidade. O ser humano em sua individualidade deve suster suas virtudes acima de qualquer coletividade que venhama existir, pois por mais que o lado animalesco humano pareça "hostil" aos olhos desta civilização porca e deprimente, se não prevalece o indivíduo sobre a sociedade, sociedade prevalecerá sobre o indivíduo com igual ou maior animalescalidade.
CHALEGRE, Otto.