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Little White Dog

TÍTULO: A RELIGIÃO COMO AMPLIFICAÇÃO DA NATUREZA ATRAVÉS DA PRIVAÇÃO

TÍTULO: A RELIGIÃO COMO AMPLIFICAÇÃO DA NATUREZA ATRAVÉS DA PRIVAÇÃO AUTOR: OTTO CHALEGRE RESUMO Este ensaio aborda a anulação do ser humano como ferramenta de anulação do próprio sistema que o sustém, paradoxalmente este padrão observado normalmente ocorre em ambientes de opressão constante. O ensaio argumenta esta tese através do Enunciado, e a Narrativa o incorpora de forma prática, numa leitura que exige consciência sobre o método. ENUNCIADO A religião é uma sistematização dogmática que apela para a fé humana, a fé, por sua vez, é uma crença irracional na certeza de resultados positivos através de providência divina. Essa providência não é gratuita, ela é condicional e exige uma devoção que desestimula o ser humano a ser o que ele é em troca de amparo em falsária elevação; essa elevação é sustentada através de que chamamos de virtudes, e virtudes são construções sociais fabricadas pelo coletivo a fim de que o próprio coletivo se sustente em si mesmo por meio da anulação individual. Ora, de fato a virtude é o total oposto da natureza humana, pois envolve a privação da natureza e do estado de animalidade que prioriza o singular pessoal acima do coletivo, e, portanto, essas construções sociais são moralmente estabelecidas de maneira que o ser humano que pretenda ser plenamente [e verdadeiramente] humano, não o seja, acreditando fazê-lo por vontade própria, quanto em verdade não o faz. Essa sistematização que recompensa a virtude através do prestígio social pode suprimir parcialmente a verdadeira natureza humana, mas jamais por inteira, de modo que a violência e o ego ainda existam mesmo em ambientes projetados para não concebê-los. Estes fragmentos residuais da verdadeira natureza humana são, então, penalizados dentro do sistema afim de que sejam desencorajados, uma vez que o coletivo não é onisciente e, quando o próprio ser humano se sabota ou se reprime por conta destes valores artificiais, o indivíduo está fazendo exatamente o papel que a sociedade quer que ele faça, mesmo que em detrimento do ser, já que o coletivo precisa ser composto por pessoas castradas de sua própria natureza para que o sistema social funcione com destreza. O sistema social, quando imposto sob o indivíduo, precisa de forma necessitante que sejam suprimidas as vontades do ser, isso é uma busca por estabilidade através da coerção, do dogma, da moral, da crença e dos mecanismos sociais de recompensa, os mesmos que dão refúgio de prestígio social. No entanto, o excesso da imposição das normas coletivas acabam criando justamente o efeito oposto e totalmente indesejado pelo sistema social, e, com uma pulsão transgressiva por uma violação ainda mais desmedida do que seria, se tais pulsões não fossem tratadas como desvio moral... O sistema falha exatamente onde pretende acertar, e seu erro é ainda mais violento que o status de perpetuação da virtude enquanto total oposto e/ou antítese naturalística; não à toa, o que é mais desejado pelo indivíduo é justamente aquilo que o coletivo tenta desesperadamente esconder do senso comum. NARRATIVA O monastério da Basílica de Santa Maria Maior era, por certo, o maior eixo epicentral do exercimento da fé católica apostólica romana de toda a província, quiçá do país inteiro; era um lugar de grandíssimo respeito: era temido pelo leigo e amado pelo Clérigo local, odiado apenas pelos liberais juvenis da nefasta e desprezível ação manifesta-partidária, uma corja panfletária que falava, falava, e no final, não falava nada. Certamente não havia oposição alguma que fizesse frente aos pilares indestrutíveis da crença, nem nada que fizesse oposição vinda de fora do mosteiro, e isso, quer queira, quer não, engrandecia o coração de pedra daqueles crentes, os mesmos fiéis da cidade e de toda a sua gente mesquinha de frágil intelectualidade acerca da própria fé compartilhada. Havia subalternos algures de massa popular que de nada serviam senão para compor a mais enojável da sacrossanta indistinta comuna que a todos agrupavam em torno de si e de sua sociedade cidadã. Eram, pois, as pessoas comuns que não se davam ao trabalho de compreender nem mesmo quem ou por qual razão eles se prostravam... Talvez a grande vitória da fé seja justamente se sustentar por através das costas daqueles que inintendiam seus propósitos sacramentais. Nas missas eucarísticas todos canibalizavam o corpo de um homem morto e bebiam de seu sangue sem nunca se perguntar por qual razão o faziam, delegavam suas más ações a um diabo que lhes era indiferente e adoravam estátuas de barro como se elas próprias fossem menos vivas que as tais. Nada ali é novo, nem velho demais, apenas constantemente hipócrita em relação à própria inversão de valores que aconteciam lá dentro, e isto, senhores, não pode ser ainda pior do que aquilo que eles mesmos criticam. No final, a natureza apenas mostra sem delicadeza alguma o espelho que todos fingem não ver. As esposas de Cristo eram sempre muito novas quando ingressavam na vida de teologia servil, era sempre o mesmo choque de imagens, uma ritualização social quase irritante de tão óbvia: noviças inocentes no findar da adolescência para a fase adulta, e velhas que nelas exerciam autoridade hierárquica, velhas estas que sempre eram amargas demais; amargas por serem secas, secas por serem vazias, vazias por não sentirem desejo, não desejar, por jamais terem sido desejadas, numa escalada cruel de desumanização, e elas, desalmadas, tratavam de levar todo o seu amargor para as pobres irmãs recém egressadas no monastério da Basílica. Os diáconos e presbíteros, aliás, seguiam a mesma esquematização de amputação: como privar um homem de seus instintos mais selvagens sendo ele próprio a perfeita encarnação natural da selvageria? seria o equivalente a castração ou algo que venha a decepá-los de seus próprios falos, que são o símbolo máximo de seu próprio poder viril. Ora, o homem ali não apenas deixava de ser homem, como esquecia-se de sua própria natureza; essa sim, era a mais cruel das sentenças: o orgasmo a evitar, o gozo a esconder, a polução noturna lhes des-dignificando, o desejo perpetuamente reprimido, e tudo porque uma dúzia de homens decidiram que o alegórico era factual, e o factível era lei, e a lei uma principiante desculpa para sistematizar o mundo conforme suas vontades, conforme a antítese da natureza... O diabo, se existisse mesmo, caçoaria de nós por causa disso. Num certo dia, nestes que não têm nenhuma importância para nós nem tampouco pro calendário litúrgico, um novo Padre fora transferido para a Diocese local, este egressou à Basílica, onde atuaria enquanto membro do corpo paroquial, seu nome era Augusto, um profundo conhecedor da teologia e das demais tradições religiosas. Por ter uma aparência serena de jovialidade, seriedade e compostura, logo tornou-se magnético o bastante para atrair a atenção das noviças que tinham a breve oportunidade para vê-lo, bem como o despertar da ira de seus irmãos, e os ciúmes do Clero maior, isto é, dos velhos que já não se enrijeciam da excitação nem muito menos permitiam que outros pudessem enrijecer-se e excitar-se da própria natureza masculina que, ironicamente, deveria por Deus ser-lhe dado segundo a própria crença. O novo presbítero da Santa Igreja não era apenas belo aos olhos de quem pudesse vê-lo, como também irritantemente conhecedor das escrituras e da teologia, e, para um clero que precisava de tolos e medíocres afim de que se sustentasse a fé, a presença daquele homem no seio da igreja já era, por si mesma, um insulto latente à ordem e aos bons costumes do monastério. Quando Augusto ministrava alguma missa, as leigas, casadas, solteiras, castas, virgens e celibatárias ignoravam completamente o sermão para imaginar-se sob os domínios do que quer que havia debaixo da batina e das vestes eclesiásticas; os maridos sabiam, pelos olhares alheios, que algo no ambiente estava errado, mas ninguém se levantava para esmurrar o Padre, fazê-lo sangrar poderia ser perigoso demais numa sociedade regida pelo Código Canônico. Regularmente, as freiras à ele se confessavam, e cumpriam penitências rigorosas, o que, paradoxalmente, as faziam pecar ainda mais. Uma delas, Judite, nos seus dezenove anos de idade era, antes de adentrar ao monastério, era uma habilidosa desenhista com o qual exercia seu ofício artístico de forma aberrantemente descomunal; mas seus pais a repreendiam, e mais ainda, as freiras velhas lhes diziam ser pecado. Mas, como os olhos de Deus não alcançam todos os lugares, a noviça detinha um caderno às escondidas cujos desenhos, particularmente secretos, eram para ela, um refúgio... Até que, com o passar do tempo na órbita errante do Padre Augusto, bem como em suas confissões, os desenhos da jovem começaram a pender para o erotismo leve, e, vez por vez, desenho por desenho, um erotismo gritante; agora, Judite se desenhava junto dele, em posições que nem seus pais ousaram tentar. Augusto, por sua vez, era um colecionador de inimizades com os demais presbíteros, quando discutia sobre a teologia da igreja, sua visão irritantemente liberal era vista como uma calúnia, e muitos conspiraram contra ele em silêncio, apenas para rezar logo em seguida em noites solitárias, rogando à Deus para que lhes fossem retirados este ódio do coração, ao passo em que, pelo dia, diziam "que Deus o mate, que Deus lhe envie para o inferno (!)". De fato a ira de Deus caiu sobre a igreja, mas como ausência, pois o monastério cada vez mais afundava em erros grotescos que antes eram apenas um luxo recluso aos leigos, mas jamais do clero. Outros membros do diaconato detinham visão semelhante mas jamais coragem para externalizar tal proximidade opinativa, e isso causava solidão, não uma solidão pessoal, mas sobretudo intelectual. Judite com quem tinha afinidade amigável com Anelise, de dezoito anos recém-chegados, partilhava de seus desenhos proibidos dela com o tal do Augusto, eram obras realistas o bastante para despertar o desejo e a luxúria que jamais deveria se quer bater nos portões do monastério, mas que, por conveniência da repressão, já estava lá dentro junto das duas, que sempre buscavam oportunidade (por mais inútil que fosse) de estarem juntas do Padre, seja no confessionário, no piso da Basílica que limpavam, nas vitrais que nem tinham poeira o bastante, mas mesmo assim, ali estava um pano para que as duas tirassem proveito do tempo juntas; quando não, conseguiam secretamente conversar com o tal, e, com o passar do tempo, trocar correspondências cifradas. Anelise, a mais tímida, gostava de ter momentos a sós com aqueles desenhos tão proibidos e infames, quase namorando silenciosamente as imagens entre suspiros de anseio por uma factuabilidade que ela queria que fosse palpável, mas, não era, ainda. Ela, que tão bem vestida por detrás do hábito da vestimenta não permitia que as mais velhas soubessem que, em momentos solitários, se satisfazia no banheiro apenas com a coifa sobre a cabeça, com os dedos da mão descobrindo o estímulo que em seus tempos de moça do lar antes do monastério, desconhecia. Mas era Augusto quem sabia que participava de um sistema falho, ele só não sabia antes o que deveria ser feito, ao que parece, a teologia é a maior arma contra a crença que ela mesma [a teologia] se propõe a defender. Augusto, o Padre, entrou na igreja sabendo que ela era maligna, e comprovou suas teses através da inveja de seus irmãos e de desejo de suas irmãs, mas, ao invés de tentar mudar o sistema, ele resolveu que era muito melhor se beneficiar através dele, por dentro. Um dia, num destes qualquer, ele acorda e percebe que não há nada a ser feito: ou padeceria tentando confrontar a estrutura, ou a perpetuaria, tal como os bispos o fazem; bispos estes que era de conhecimento interno, não como uma fofoca medíocre, mas como caso, de que estes homens não apenas eram desvirtuosos, como desvirtuavam os demais, tinham amantes, homens e mulheres... A santidade era uma farsa, e Augusto, o Padre, seguiu o exemplo dos mais velhos; ora, estaria fazendo alguma coisa errada um Padre obedecer um Bispo? ele apenas obedeceu a hierarquia mecanicamente. No confessionário, Judite que em flerte constante, latente e sutil, confessou sua paixão à ele, mas ao invés de ser rechaçada, como presumia, ao invés de pagar penitência, ou de ser, de forma protocolar, distanciada, ela é correspondida com um beijo suave nos lábios, selando ali, o caso entre os dois. Com o tempo, o mesmo foi feito com Anelise, e de baixo do teto da igreja, sem que pudessem perceber, havia um triângulo poligâmico coexistindo com a sacracidade... Era perversão infame, mas era a verdade. Um dia, o desejo falou mais alto que o coral gregoriano do domingo, e os três se encontraram às escondidas pelo noite enquanto todo o restante ou estava dormindo ou estava rezando. Augusto com um argumento desculposo convidou ambas para um estudo teológico noturno; o termo era uma piada de mal gosto consigo mesmo, mas todos toparam estar na igreja à meia-noite, e assim sucedeu-se. O Padre, então, trajado das vestes sacras do diaconato, cuja eclesiástica sotaina preta achegou-se ao púlpito de Cristo na sagrada Igreja, cujas luzes das velas de cera que derretiam lentamente sob os castiçais dourados que iluminavam a escuridão daquele lugar, e refletiam seu iluminar em um fraquejado amarelo disforme, tal como a cor dos dentes do bispo adoentado pela destitosa idade avançada, numerosa o bastante para lhe fosse retirada qualquer consciência da barbárie que seria acometida debaixo de seu nariz, no desvirtuoso lugar que era agora, ante o Padre, o epicentro da magnosa profanação que ao ambiente aguardava. Ele então abrira a bíblia que já estava ali, numa página qualquer, por onde cometeria o maior de seus delitos, enquanto era assistido pelas duas irmãs que estavam sentadas no banco da primeira fileira, ouvindo-no como quem espera o inevitável acontecer. E começou seu ditado: — "Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno." E riu logo em seguida como se tivesse acabado de dizer o maior absurdo de sua vida, mas, que ao propósito, havia mesmo dito de fato. E repetiu: — "Ah, sim, é claro, porque segundo Aquino nosso corpo, que é inseparável da alma regenera-se para sofrer ainda mais... O Deus Todo-poderoso se reserva ao luxo de regenerar perpetuamente os que não viveram segundo seus preceitos medíocres, para suster estes em miséria perpétua mediante a tortura, mas, este mesmo Deus não usa meio-terço do poder de regeneração para matar a fome do mendigo que estava do lado de fora da Basílica esta tarde." As irmãs estavam boquiabertas pelo absurdo da barbárie, mas também ainda mais admiradas pela coragem, e atraídas pela figura transgressora. E, havendo outra pausa breve para olhar a simetria perfeita dos vitrais da igreja, tão bem limpos e suficientemente iluminados pelas velas; viu, e riu de canto dos lábios, como se alguém tivesse lhe contado alguma anedota, quando em verdade ele próprio estava diante de uma, e das mais cruéis. E então, continuou: — "Ele preferiu erguer monumentos em seu nome imundo do que alimentar as bocas famintas, proferiu profanar o corpo do homem para que estátuas de mármore pudessem permanecer de pé, santificadas para sempre... Na verdade, Deus é o único e verdadeiro merecedor de seu próprio inferno, ele que desça até ele, e que nele arda para sempre de dia e de noite, o pereça junto de seus anjos hipócritas que de nada servem verdadeiramente senão para bajulá-lo, que bajulem-no sob o sofrimento, a fome e a dor, e deixem a humanidade em paz do único mal que existe: a perversidade divina, pois quem é o Diabo senão Deus trajado de vermelho?" Quando aqueles dizeres foram ditos, Judite levantou-se indignada, frustrada e reprimida, foi quando Augusto lhe ordenou para que também Anelise ficasse de pé e juntas viessem ao púlpito da igreja, e, hesitantes, o obedeceram. Ele as beijou, primeiro Judite, depois Anelise, ambas o corresponderam com urgência ardente, como se quisessem perpetuar o momento (e de fato o fizeram) quando juntas começaram a despir o Padre veste por veste até que fosse reduzido à um mero homem nu com um terço no peito. Mas ele tomou ambas em seus braços, rasgou-lhe as vestes e arrancou-lhe os terços de seus pescoços, deixando-nas nuas e revelando a pele branca como porcelana e os cabelos loiros de ambas, diante dele. As jovens apoiaram-se sob o púlpito com os cotovelos sob o suporte enquanto o Padre usava de seus corpos para satisfazer as suas fantasias de posse e dominação, elas seguravam juntas a bíblia com tanta força que seus dedos apertavam a capa, e as unhas rasgavam-sa. Em seguida Judite sentou-se sob o suporte do púlpito enquanto observava Anelise sendo desvirginada sob o chão enquanto arqueava o corpo acima do de Augusto que estava deitado no piso da igreja. Judite masturbou-se para a cena dos dois enquanto seu sangue virginal descia junto de fluidos corporais, caindo nas páginas das Sagradas Escrituras, molhando-na. Anelise ainda alternou entre diferentes posições com o Padre como se ambos quisessem se certificar de que todas combinações corporais possíveis seriam usadas no espaço de tempe que tinham. Judite então se senta sob o membro fálico do Padre, preenchendo seu ventre da rigidez dele enquanto Anelise sentava-se sob o rosto do homem, que a satisfazia com a língua; ambas as freiras ficaram por cima do Padre uma de frente para a outra, e, para calar o gemido de ambas, elas encontraram seus lábios num envolvente beijo lésbico. Quanto Anelise sentiu espasmos, orgasmou ainda no rosto de Augusto, com o qual enxugou-se com véus das duas freiras. Ele as colocou de joelhos diante dele, e, entre olhares provocantes de súplica, o Padre despejou seu prazer no rosto das duas, apenas para sentar-se no banco de onde as duas estavam anteriormente, descansando enquanto ambas estavam aos seus pés ansiando por mais. O cheiro daquele ambiente era tão denso quanto o pecado criminológico cometido, e Augusto sabia disso, não apenas ele como todos que ouviram os gemidos vindos da igreja e preferiram fingir que era o próprio demônio, e no final, era mesmo. Quando os três retornaram, a casa de Deus estava lentamente se tornando num prostíbulo onde freiras eram meretrizes e o dízimo era o valor de quem pagava mais caro pelo amor incondicional. A noite encerrou-se com o Padre masturbando-se para os duas enquanto elas usam uma estátua ereta de São Pedro como um consolo compartilhado, onde as nádegas de ambas batiam uma contra a outra provocando um barulho semelhante à palma da mão quando batida... Ao término, as freiras se vestiram, sujas, mas se vestiram, tomaram banho nas dependências do monastério junto do Padre, e, antes do galo cantar pela terceira vez, já estavam limpas e puras novamente em seus aposentos, como se nada ali tivesse acontecido. No dia seguinte, a vida no monastério permaneceu exatamente a mesma, do jeito que sempre havia sido, sem escândalos comprometedores, sem perguntas, sem santidade, apenas a certeza de que aquele lugar era o mais próximo o possível do inferno, nenhum bispo, nenhuma irmã ou clérigo algum falaria coisa alguma, pois no final, todos seguiam estritamente a parábola de Cristo: "Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o cisco do olho do teu irmão" e, infelizmente ou não, havia travessões demais dentro daquele lugar. CONCLUSÃO A religião, enquanto sistema organizado de virtudes, não elimina a natureza humana que afirma corrigir; apenas a desloca para zonas de clandestinidade onde ela se intensifica, se deforma e se torna estrutural. A privação não opera como contenção, mas como amplificador: quanto mais rigorosa a renúncia exigida, mais engenhosa e sistemática se torna a transgressão. O que se apresenta como elevação moral revela-se, na prática, um mecanismo de gestão do desejo, não de sua superação. CHALEGRE, Otto.